ATRAVESSANDO A CIDADE
Se sairmos da Favela e virarmos à esquerda na avenida, poderemos ver lá ao longe, atrás de várias outras ondulações menores, o Pico do Jaraguá. Nos dias mais límpidos é possível contemplá-lo claramente e nas tardes avermelhadas pelo poente ele ganha ares poéticos. Podemos atravessar uma vida apenas olhando para aquele ponto distante da cidade, mas ontem ele ganhou um outro significado para nós.
Na manhã ensolarada de sábado enchemos a nossa querida Kombi e partimos – sob o olhar apreensivo das mães, como se as crianças estivessem partindo para uma longa viagem – em direção ao outro lado da cidade, para a primeira apresentação de dança do nosso grupo, formado por seis jovens e quinze crianças. Ruas, avenidas, a rodovia, sobe morro, sobe mais morro e chegamos lá no alto, no CEU Vila Atlântica, do ladinho do Pico. Se subíssemos mais um pouco talvez conseguíssemos ver a nossa Favela.
Cortemos os detalhes. Às 16 horas as luzes do teatro se apagaram, o público, formado por crianças freqüentadoras do CEU e atores amadores de uma outra associação, fez silêncio e ouvimos a voz do David, arte educador do nosso grupo, anunciando o grupo, de onde vinham e o que iriam apresentar – uma peça curta de teatro que poderíamos chamar de um musical, já que é recheada de música e passos de dança.
As cortinas se abriram e passamos ali quase uma hora encantados com nossas crianças, criancinhas e jovens maquiados, fantasiados, dançando, cantando e contando a história do ‘empório da imaginação’, embalados pelas músicas e letras infantis de Chico Buarque e seus saltimbancos trapalhões. As roupinhas, as maquiagens, as máscaras, os passinhos ensaiadinhos, o esforço enorme dos jovens para tornar real o sonho de ‘ser ator’, tudo isto é lindo e emocionante em si, mas muito mais para mim e para a Izilda, nossa parceira de sonhos, sentada ao meu lado, pois só ela e nós da Rainha da Paz sabemos quantas cidades tivemos que atravessar para chegarmos a este momento tão bonito e concreto; que desafio enorme foi acreditar em novas possibilidades culturais para a Favela e o quanto estava sendo gratificante colhermos aquele fruto tão puro.
No final o David agradeceu-nos pela força e incentivo, mas não, nós é que temos que agradecer a ele por ter acreditado no nosso sonho, nos emprestado o seu talento e ter concretizado algo que rondava, há muito tempo, ‘o empório de nossa imaginação’.
Ao entrarmos na rodovia, já de volta pra casa, quase noite, vi pelo retrovisor do carro, como se nos acenasse, ele, o nosso Pico. Que bom é poder, em vida, decifrar um sinal da natureza, o de que aquilo que vemos lá ao longe repentinamente se nos aproxima, nos emociona e nos enche de alegria!
Escrito por Vozes da Comunidade às 16h49
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