INFORMAÇÕES SOBRE OS JOVENS AFRICANOS QUE NOS VISITARAM
Berta Chilundo
Chilundo é natural de Zavala, Inhambane, e tem 25 anos. Formou-se em Direito em 2003 pela Universidade Eduardo Mondlane, Moçambique. Trabalha atualmente para o FECIV – Instituto de Educação Cívica, em Moçambique, e pretende participar de três diferentes projetos ao retornar ao seu país: a) uma campanha contra o abuso sexual em escolas de Zambésia; b) uma campanha contra o tráfico de crianças em escolas de Maputo e Nampula, envolvendo a capacitação de organizações não governamentais, líderes comunitários e adolescentes; c) a criação de um abrigo de crianças vítimas de tráfico (especialmente crianças moçambicanas provenientes da África do Sul).
Custódio Duma
Duma é natural de Mossurize-Manica, e tem 26 anos. Formou-se em 2003 em Direito pela Universidade Católica de Moçambique, 2003. Ao terminar o período de intercâmbio no Brasil, trabalhará junto à Liga Moçambicana de Direitos Humanos, desenvolvendo um trabalho de assistência legal e capacitação na província de Cabo Delgado, na região norte de Moçambique, onde persistem uma alta taxa de criminalidade e um número ínfimo de advogados. A região é uma das mais pobres do país. Duma trabalhou como editor do jornal universitário e participou de um programa universitário de rádio.
Sheila Mandhlate
Sheila Mandhlate é natural de Maputo e tem 28 anos. É formada em Relações Internacionais pelo Instituto Superior de Relações Internacionais. Tem trabalhado em campanhas por orçamentos participativos e pretende desenvolver um projeto sobre acesso à informação ao retornar a Moçambique junto à organização Sociedade Aberta.
Marta Uetela
Marta Uetela tem 37 anos é natural de Morrumbene-Mucambe, tendo fluência em três línguas do sul de Moçambique. Formou-se em língua portuguesa pela Universidade Pedagógica de Maputo em 1998. Trabalha atualmente em uma organização internacional – The Lutheran World Federation, mas ao retornar a Moçambique, desenvolverá projetos junto a PROMETRA, com enfoque no desenvolvimento do direito à saúde a partir de técnicas tradicionais.
Escrito por Vozes da Comunidade às 11h42
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ÁFRICA NA FAVELA
‘Eu vi dois homens passando por minha rua, um pandeiro e um berimbau. Eles tocavam e cantavam alto como se o mundo não existisse ou fosse possível a existência de um outro mundo, onde as coisas fossem mais bonitas e coloridas, os espíritos mais livres, o sol mais quente, as dores mais amenas e as emoções mais intensas. Uma capoeira intimista e contagiante, uma felicidade latente, um coração batendo, uma África perdida, evocada, resgatada, eternizada, viva.’
Me lembro de, há pouco mais de dois meses, ter me debruçado na janela de minha casa, emocionado com a passagem daqueles dois negros, que me fizeram sentir saudades de um lugar aonde nunca estive, a África, e isto deixa claro o quanto sou suspeito para falar sobre o assunto, pois apesar de ter pai espanhol e origens germânicas por parte de mãe, sempre me senti muito próximo da cultura deste continente, do qual, docemente, me aproximo mais e mais com o passar dos anos.
Ontem, conforme convite que me preocupei em enviar para absolutamente todos amigos e parceiros, recebemos, aqui na Rainha da Paz, a visita do rapper angolano MC KAPPA que está visitando o Brasil, a convite de uma ONG internacional. Ele já havia visitado comunidades no Rio de Janeiro e ficamos muito felizes em recebê-lo em São Paulo, por considerarmos importante a oportunidade dos nossos jovens poderem dialogar com alguém de um mundo tão próximo de nossas raízes e ao mesmo tempo tão pouco conhecido, mas, como intimamente eu já previa, foi muito mais que isso.
Primeiro porque, além de MC Kappa, os amigos que indicaram a nossa Associação e a nossa comunidade, ainda trouxeram mais quatro moçambicanos que estão no Brasil fazendo um estágio, a partir de um programa de intercâmbio na área de direitos humanos, ou seja, não ganhamos um presente, mas cinco, MC Kappa, Custódio, Berta, Marta e Sheila.
Logo que chegaram demos uma volta pela Favela, como sempre fazemos com nossos visitantes, para que sintam o clima e não carreguem a falsa impressão de que a nossa Associação é a Favela. É importante que se saiba que o foco do nosso trabalho é o combate e busca de superação para a degradante condição em que vive a grande maioria das famílias de nossa comunidade. Nesta caminhada já pudemos perceber o grande valor daqueles jovens que vieram de tão longe: o olhar atento a tudo, como se fosse algo familiar e um obstáculo a ser enfrentado; comentários que revelavam uma preocupação honesta, um profundo humanismo e uma aproximação cada vez maior entre os nossos mundos, que nem o oceano, nem quinhentos anos de história, escravidão, exploração e guerras conseguiram separar.
Um pouco depois subimos para o salão, Kappa foi entrevistado pelo jornal Brasil de Fato, e começamos um bate papo que durou mais de duas horas. Fiz questão de convidar, além dos jovens que fazem parte dos projetos culturais na Rainha da Paz e de integrantes do movimento Hip-Hop, outros jovens, que não se interessam por quase nada e saem na metade de quase tudo que participam, só para avaliar o impacto da visita. Aos poucos o salão foi enchendo, com visitas que vinham de outras entidades e até de bem longe.
Pedimos para que eles falassem um pouco sobre seus países, para que os jovens presentes pudessem se localizar e saberem quem estava nos visitando, e a partir deste momento, posso dizer, ainda bem que gravamos tudo em vídeo, pois começamos a vivenciar um dos momentos mais bonitos e históricos de nossa Associação, de nossa comunidade e – por que não? – da vida de muitos que ali estavam.
Para repetir um comentário que ouvi repetidamente da boca de vários jovens, foi uma aula de história e geografia, e eu complementaria, de sociologia, filosofia, antropologia e recheado de muita cultura, quesito em que a África é incomparável.
É difícil narrar a riqueza de tudo o que foi debatido, exposto, desconstruído, restaurado e criado, o que talvez só seja possível a partir de um novo olhar que o filme nos possibilitará, mas basta dizer que foi ficando cada vez mais claro, acho que para todos, o significado e a importância da cultura e do espírito africano para o mundo; um jeito muito particular, puro e lindo de ver a vida; um desapego a tudo que é sórdido e uma intimidade com tudo que é simples e límpido, ou seja, um mundo quase inexistente, perdido talvez, mas ainda vivo, ali, à nossa frente, nos convidando a crer; como no verso de Drummond: ‘Eu preparo uma canção que faça acordar os homens e adormecer as crianças’.
Não direi mais nada, basta dizer que todos, sem exceção, aqueles jovens que fazem tudo pela metade, ficaram até o fim, foram conversar com nossos visitantes no final, trocar e-mails, e hoje vieram me falar sobre uma coisa que, acho, nunca tinham ouvido falar, disseram que farão ‘intercâmbio com os manos africanos’.
No final Kappa nos presenteou com três músicas, cuja beleza e mensagem seria muita pretensão minha tentar descrever (deixemos para ouvirmos juntos depois, no filme), nos despedimos e eu pensei que não morro sem antes conhecer um determinado continente deste nosso planeta azul, e negro.
Escrito por Vozes da Comunidade às 13h36
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Informação para a Favela de um locutor que vive nela.
Parece que foi ontem que vi um cartaz que dizia: ‘Capacitação para Radialistas em Desenvolvimento Infantil’; assim que li já me imaginei participando daquele curso.
Fiz questão de imediatamente me inscrever, liguei e a primeira pergunta que me fizeram foi ‘você é radialista?’, ao que respondi com outra pergunta: ‘por que?’, e ela respondeu que só poderia participar quem já atuasse em rádio. Automaticamente falei que atuava.
Fiz a inscrição dizendo que era de uma rádio comunitária e fui para em frente. Lá aprendi muitas coisas sobre rádio e sobre a função do radialista; conheci uma porção de pessoas que já atuavam mesmo e outras que estavam representando alguma, mas não eram locutores ainda, foi ai que comecei a me identificar com a coisa. O curso foi puxado e aconteceu no centro da cidade, na sede de uma agência chamada Oboré.
Essa experiência serviu de base para eu desenvolver minhas habilidades na arte de comunicar pois já cantava e, como no Rap, percebi que cada locutor tem seu estilo e que precisava desenvolver o meu. Mas ficava pensando em como me desenvolver se não atuava em nenhuma rádio.
Foi aí que o pessoal do 'Projeto Metamorfose', aqui da Favela, me convidou para ser locutor de uma ‘Rádio Poste’ que eles estavam programando.
Hoje a Radio Barracão ou Poste é um grande sucesso e graças a essa iniciativa do grupo estou criando meu próprio estilo.
Já estamos produzindo o quarto programa na comunidade e com vários motivos para comemorar. As atividades começaram com um programa na Av. Fim de Semana, que teve como foco a questão do lixo e os problemas ambientais que afetam a Favela; depois, no campinho da Favela, fizemos um programa abordando os vários estilos musicais apreciados pelos moradores da periferia; e o último programa, dia 30/04/05, foi o maior sucesso e teve como tema o cinema, no dia da comemoração de aniversário do Grupo MUCCA (Mudança com Conhecimento, Cinema e Arte). Neste programa pudemos perceber os nossos avanços e eu, particularmente, percebi que o estilo que tanto busco está começando a se definir, não porque caiu do céu e sim porque ele está sendo construído coletivamente, junto com a equipe da Rádio Barracão, que conversa, dá opiniões e cria cada programa, o roteiro, a trilha sonora, as entrevistas, o clima e as falas.
Já temos a data e o tema do próximo programa – será no dia 13/05, às 15 horas, na Associação Rainha da Paz, onde trabalho, debatendo e trazendo informações sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e a Eleição para o Conselho Tutelar – e contarei pra vocês como foi no próximo texto que escreverei aqui para o nosso blog, contando esta minha experiência. Douglas Mariano, locutor da Rádio Barracão.
Escrito por Vozes da Comunidade às 14h05
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