Fim de Semana no Ar


O PROCURADOR E A FAVELA

Hoje recebemos, aqui na Rainha da Paz, a visita de um procurador do estado, o Dr. Carlos Weis, que veio bater um papo com os jovens que estão participando das oficinas ‘Violência e Direitos Humanos’. É difícil avaliar a importância desta visita para a comunidade ou para a nossa Associação, mas durante todo o tempo em que conversamos com ele fiquei com uma estranha sensação, como se estivesse acontecendo algo histórico ou aguardado há muito tempo.

O Sr. Carlos tem algo entre 30 e 40 anos e é daquelas pessoas boas de se conhecer: inteligente, receptivo, coerente, humanista e, principalmente, indignado com o mundo em que vivemos e sonhador de coisas melhores. Durante mais de uma hora de sua apresentação e respostas às nossas perguntas, ele expressou, invariavelmente, aquele tipo de opinião de alguém preocupado com o mundo, com o ser humano e com a possibilidade de construirmos um país melhor, distante da maioria daqueles burocratas empolados que povoam o judiciário.

Falou do inevitável sentimento de impotência e emoção que sente todas as vezes que visita um presídio; do absurdo de algumas leis, da desumanização e falsa imparcialidade da justiça, do distanciamento desta em relação à comunidade, além de criticar a construção desenfreada de presídios – ‘a forma mais cara de se fomentar a criminalidade’ – o custo da construção – só construção – de um presídio para 700 presos é de dez milhões de reais, sendo que só no estado de São Paulo cria-se mil novos condenados por mês, o que fará com que em dois ou três anos um terço do orçamento do estado seja destinado ao ‘mundo carcerário’ – ou propor que o melhor é acabar com o isolamento do judiciário, aproximando-o mais da sociedade e que o caminho mais curto para isto seria uma proposta que está avançando no Paraná, a criação de Conselhos Comunitários, o que precisamos pesquisar e conhecer um pouco mais, mas a estranha sensação que senti não foi só em relação a este discurso tão próximo do que pregamos, e sim o caminhar histórico, a aproximação. Para nós que conhecemos esta ‘terra selvagem’ e sem lei em que vivemos, onde o que impera, em uma gama enorme de sentidos, ainda é um elo perdido entre o primitivo e o bárbaro, é um alento, uma luz, encontrarmo-nos com alguém que nos revigore; que transforme algo intangível há pouco tempo atrás em algo possível.

Este é o lado bom de se trabalhar no social, deparar-se com uma esperança arraigada em nosso espírito, mas quase perdida.



Escrito por Vozes da Comunidade às 11h35
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