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Relatos de um Guerreiro
Ser morador da Favela Fim de Semana ou de qualquer outra de São Paulo ou do Brasil não é fácil, pois o que está sempre acessível são as drogas, o crime e a oportunidade para se tornar um pixador conhecido, que forma opinião dos mais novos, desde as crianças até os adolescentes que não estão preparados para dizer não.
Fui um desses que ao ser convidado para praticar atos de vandalismo pela cidade, aceitou sem dizer não, mas também tinha apenas 11 anos de idade, família mal estruturada e amigos que já estavam envolvidos com a arte de pixar muros e prédios de Sampa.
Dessa experiência não posso dizer que só tive infelicidade pois era muito gratificante quando chegava nos Point`s da cidade e todos nos reconheciam, poderia não ser um reconhecimento que trouxesse recursos financeiros ou bens materiais mas para um adolescente que não tinha nada já era uma boa ser famoso pelos muros e edifícios que escalei para deixar minha marca.
Como tudo tem um preço pagamos muito caro por essa brincadeira, quando estávamos no auge da adolescência a mais ou menos 4 anos atrás em uma chacina no Jardim Figueira Grande perdemos seis grandes amigos de uma só vez, pois estavam no lugar errado na hora errada como costumamos dizer, tivemos nossa primeira passagem pela FEBEM, mas infelizmente não parou por ai, até perdemos o nosso líder que para todos era a pessoa mais impressionante do grupo.
Após essa perda comecei a refleti, já tinha 16 anos estava na 5° serie e sem nenhuma perspectiva para o futuro, já estava sendo cobrado pela minha família que precisava de mais um trabalhando para complementar a renda familiar, não sabia para onde correr, emprego não arrumava, para Bicos ninguém me chamava e foi ai que novamente fui convidado para uma gangue desta vez não para vandalizar e sim para roubar pois para muitos esta e a opção mais acessível, GRAÇAS a Deus não aceitei e foi ai que a trajetória começou a mudar.
Após uma amiga pedir o meu RG para me inscrever no primeiro curso da minha vida agarrei como um tesouro, pois foi a primeira oportunidade que tive para fazer algo que desse futuro e não poderia perder pois as cobranças em casa já estavam quase me deixando louco.
Bem após começar o curso do Agente Jovem no ano 2000 descobri como tinha gás para fazer coisas boas que ajudam o coletivo, depois desse já participei de uns dez, alem de participar do Fórum Social Mundial em Porto alegre onde caminhamos muito pedindo a Paz, Fórum Marista sobre adolescência em Curitiba no Paraná o que proporcionou para mim um intercambio com adolescentes que são acompanhados e educados conforme a igreja católica os ensina e hoje trabalhar na Associação Rainha da Paz para mim é ter a oportunidade de fortalecer a rede de juventude que existe no meu bairro, pois as políticas feitas para jovens quando chega na comunidade não supri nem a metade da demanda a ser atendida e ainda chega com distorções, fazendo com que os Jovens não se identifiquem com o objetivo do trabalho a ser realizado e aceite qualquer outra proposta que lhes são oferecidas, por isso eu dou os meus parabéns para aqueles que decidem aproveitar o conhecimento das lideranças jovens da comunidade e investir em sua formação para que os mesmos sejam capazes de incentivar, construir, acompanhar, fortalecer e politizar a comunidade para que participem de um novo processo no qual nunca teriam tido a oportunidade de se expressarem.
Douglas Mariano.
Escrito por Vozes da Comunidade às 16h34
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A cegueira
Ontem fomos fotografar pontos críticos da favela em relação à questão ambiental. Achei que apenas faria o papel de guia, mas não foi tão simples assim.
Começamos visitando alguns pontos degradados da Favela Fim de Semana, onde já pudemos observar as condições muito precárias em que vivem tantas famílias, morando em barracos construídos em áreas de risco e sobre esgotos que servem de moradia para ratos e tantos outros bichos, mas foi na Favela do Capelinha, nossa segunda parada, que nos deparamos com uma situação realmente degradante. Mesmo pra mim, que já fui tantas vezes àquele lugar, é uma experiência sempre difícil e lamentavelmente marcante. A primeira vontade que nos vem quando saímos de lá é fazer exatamente o que fazem as elites, a classe média e os poderes públicos do nosso país: fechar os olhos e esquecer que aquela gente existe, o que aparenta não ser muito difícil, pois a ‘porta de entrada’ da Favela é estreita e corre-se o risco de se passar mil vezes em frente ao local sem se notar que existe um sub mundo ali atrás.
Enquanto avançávamos no mar de lama, fedor, merda, doenças, fome, degradação familiar e desesperança, pedindo licença para fotografar, falando sobre o nosso possível projeto, meu olhar vagava tristemente lembrando-me dos círculos do inferno de Dante, pois parecia ser progressiva a miséria e degradação; depois lembrei-me do caos e podridão causados pela cegueira branca de Saramago, mas não demorou para que eu notasse que estas referências literárias eram apenas refúgios nos quais eu tentava me amparar, pois o que se instaura e fica impregnado em nosso espírito ao visitarmos aquele lugar é um misto de impotência, revolta e tristeza.
A Favela do Capelinha é um corredor de aproximadamente 350 metros de comprimento por 50 de largura, com barracos de madeira construídos sobre palafitas de mais de um metro e meio de altura, onde há uma trilha que liga uma extremidade à outra, na qual, para quem sai da avenida e vai em direção ao fundão, a impressão que se tem é a de que o pior está sempre por vir. Não é à toa que a nossa última foto nesta favela tenha sido um poço podre, sem tampa, ao fundo do qual podemos ver o córrego fétido que passa sob a Favela. Pensei naquelas bucólicas cidadezinhas do nosso Brasil que têm uma ligação de amor e cumplicidade com os tantos rios que as cortam. Qual será a ligação destas famílias com este córrego silencioso e subterrâneo?
É melhor não falarmos da expressão de revolta no olhar dos adolescentes, da textura da pele de todos e das frases pronunciadas pelas crianças e pais de famílias que encontramos naquele corredor, pois voltamos em direção ao outro lado da avenida, onde a entrada também é dissimulada, como se secreta fosse, e onde nos deparamos com a mesma miséria já descrita, mas diferente, pois deste lado o córrego é a céu aberto e, mesmo com sua viscosidade cinza/marrom, cria uma atmosfera menos opressora.
Talvez o único fato alentador deste dia se deu à beira deste córrego, onde encontramos um jovem morador, o rapper PX, freqüentador de nossa Associação, que nos recebeu, ‘nos acolheu’, nos apresentou aos moradores que encontrávamos e nos acompanhou para as fotos do local. Como é bom encontrar a amizade, a juventude, a luta e a esperança!
Escrito por Vozes da Comunidade às 16h34
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Escrito por Vozes da Comunidade às 16h33
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Escrito por Vozes da Comunidade às 16h32
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Escrito por Vozes da Comunidade às 16h32
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Escrito por Vozes da Comunidade às 16h32
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Escrito por Vozes da Comunidade às 16h27
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Escrito por Vozes da Comunidade às 16h26
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Escrito por Vozes da Comunidade às 16h25
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Escrito por Vozes da Comunidade às 16h25
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Escrito por Vozes da Comunidade às 16h24
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Em busca da garantia dos direitos da Gestante e da Criança.
Após muito lutarmos em busca de uma parceria com a Pastoral da Criança, nós conseguimos ser inseridos em uma capacitação de 40 horas que está acontecendo na Paróquia Santa Maria Gorete.
Para nós essa capacitação é fundamental para o bom desenvolvimento das crianças da comunidade e do nosso Projeto Fofinhos e Saudáveis, que visa erradicar esse problema tão grave que é a desnutrição de crianças até seis anos de idade. No curso também estamos aprendendo a cuidar das gestantes, pois entendemos que cuidando da mãe a criança já nasce com saúde e bem nutrida.
Somos em trinta pessoas participando do curso, sendo treze da Rainha da Paz, no curso estamos acompanhando casos fictícios, que retrata o que vemos na comunidade no dia-dia e através dessas informações poderemos ser mais claros nas explicações que daremos às famílias e necessárias na hora de fazer a pesagem que significa para o Projeto o Dia da Celebração da Vida.
Acreditamos que após esse processo e formados Líderes da Pastoral da Criança, nossa comunidade irá ganhar em qualidade de vida e entraremos para esse exército em prol da Saúde, Educação e Cidadania.
Douglas Mariano – Coordenador do Projeto Fofinhos e Saudáveis.
Escrito por Vozes da Comunidade às 13h22
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Cotidiano Periferia.
Moro sozinho e trabalho próximo de minha casa. Gosto da chuva, mas sou mais feliz quando não está chovendo, pois posso ir a pé para o trabalho. Comprei uma bicicleta, pois já não sou tão jovem e preciso aquecer os músculos, mas o meu grande prazer é quando vou caminhando. É perto e demoro doze minutos para chegar, mas cabem tantas coisas dentro deste curto espaço de tempo. Caminho lentamente e não gosto de encontrar ninguém. Vou sentindo o nascimento do dia, o clima ameno da manhã, o orvalho que ainda resiste nos matinhos, os trabalhadores nos pontos de ônibus, o murmúrio dos alunos dentro das salas de aula da escola; as senhoras que apertam o passo todas as manhãs; as meninas lindas, de cabelos ainda molhados, que cruzam a avenida, e chego na parte que mais gosto: uma espécie de mirante que me permite ver uma parte bonita do nosso bairro, lá em baixo, sob a luz que se debruça daqui, renascendo todos os dias. Dá uma vontade de parar, mas só diminuo o ritmo, olhando para a vida, sentindo o pulsar silencioso do tempo e vendo a minha história passar, como só é possível ver nesta idade. Respiro fundo, suspiro. Desço uma trilha entre os matinhos, onde sempre fica um cavalo pastando. Tenho a impressão de que ele acordou bem antes de mim, que até já me conhece e que quase me fala bom dia. Lembro-me de minha infância, quando brincava neste mesmo lugar por onde passo agora, e sinto estar pisando os últimos restos dos tantos pastos, sítios e fazendas que existiam por aqui. Entro nas ruas estreitas do Pró-Morar, um conjunto de casas populares, onde passo por uma horta, um galinheiro onde também tem patos, e uma variedade bonita de árvores, plantadas ali já há tempos por algum caprichoso morador. Atravesso a avenida Fim de Semana, que já está agitada com o movimento dos trabalhadores, desempregados e alcoólatras que acordam cedo. Do outro lado já está a favela, que é para onde vou. Quem passa e vê aquela fachada de comércios talvez nem imagine que existe um mundo ali atrás. Basta entrar na avenida que encontrarei algum jovem ou criança me chamando e sorrindo. É a coisa mais linda do mundo vê-los sorrindo. Tenho sempre a impressão de ter feito tão pouco para merecer aquele sorriso e de não saber direito de onde é que ele vem. E como ainda é manhã, não consigo sorrir direito para eles. Sorrio pra dentro, mas olho-os atentamente, tentando entendê-los. Quebro à esquerda e entro no beco, a “Passagem B” – vai saber o porquê desse “B”! – onde, ao contrário da avenida, não encontramos uma viva alma, apesar de já ser oito da manhã, pois favela não acorda cedo. Penso na ‘Morte do Leiteiro’ e vou descendo, tentando ouvir algum sinal de vida. Nada. Quebro à direita e já encontro os jovens com os quais trabalho, todos sorrindo e falando alto. Oh meu deus, quanta energia! Sou obrigado a acordar, quase à força, e honrar a fama que criei, a de estar sempre bem humorado. Trabalho numa salinha do primeiro andar, quase o dia inteiro no computador, e descendo de vez em quando, só pra relaxar, conversar e brincar com um ou com outro. Tem dias que tenho vontade de andar pela favela. Vou aos barracos dos meninos, visitar seus pais ou seus filhos, nos botecos jogar bilhar com eles, no campinho assistir a pelada, ou simplesmente andar pelos becos. Encontro uma infinidade de pais, mães, jovens e crianças conhecidas, pois trabalho, já há alguns anos, em projetos com adolescentes do bairro. Paro pra conversar, peço um copo d’água, às vezes me oferecem um cafezinho, vou andando e viajando, imaginando transformações ainda insondáveis, volto para o trabalho e só saio no final da tarde, quando o sol estará se pondo atrás da favela, criando uma luz avermelhada e linda. Vou subindo a viela, falando tchau para as crianças e pensando que, talvez, eu seja feliz. Atravesso a avenida, chego no mirante, olho novamente o bairro lá em baixo, o sol vermelho se pondo lá atrás dos eucaliptos, a chegada da noite aqui atrás e a vida que vai passando, suavemente.
Escrito por Vozes da Comunidade às 09h58
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